A atuação de Wallace Oliveira foi tão boa quanto a expressão dele tentando se livrar da bola. Ainda bem que é jovem, e pode repensar a carreira (Foto: Rodrigo Rodrigues / Grêmio FBPA)
O Grêmio conseguiu se superar. O cantado e decantado fiasco
no Independência no último domingo parecia ter sido o pior dos mundos nesse
momento do Brasileirão, no qual o Tricolor ainda luta pelo título. Mas a
surpreendente quente quinta-feira de agosto tinha mais uma armadilha preparada
para as quase 18 mil pessoas que se prestaram a estar na Arena, no péssimo
horário das 19h30. O time de Roger Machado novamente parou em um adversário da
parte de baixo da tabela e perdeu mais uma chance de assumir a liderança do
campeonato.
Pelo andar da carruagem, outra chance dessas não aparecerá
tão cedo. A sequência gremista no Brasileirão, com o adiamento do confronto
contra o Botafogo, pela última rodada do turno, é terrível. Os três jogos do
começo do returno irão determinar qual o real objetivo do Grêmio no campeonato
– a saber, o Tricolor receberá Corinthians e Atlético-MG e visitará o Flamengo,
todos eles candidatos ao título. No meio desta sequência, haverá o jogo de ida
pelas oitavas de final da Copa do Brasil, contra o Atlético-PR, em Curitiba.
O empate contra o Santa Cruz foi decepcionante. Esperava-se
outra postura do time após o tropeço contra o América-MG, tanto no aspecto
psicológico, quanto no aspecto técnico. A empáfia da equipe novamente irritou o
torcedor, que não poupou o time de vaias após o término da partida. Faltou
profundidade ao time gremista, as alternativas propostas pelo treinador não
surtiram efeito e o zero não saiu do placar. A propósito, se alguém esteve mais
perto do gol, foi o time pernambucano, que teve atuação exemplar.
Houve inúmeros fracassos individuais. Negueba, de atuação
promissora contra o São Paulo, ficou devendo, com direito a gol perdido sem
goleiro, em rebote de falta batida por Miller Bolaños. O equatoriano também foi
abaixo da média, assim como os outros componentes do sistema ofensivo, Douglas
e Pedro Rocha – este último, constrangedor. A dupla Oliveira de laterais,
Marcelo e Wallace, errou tudo que tentou. Ainda vou descobrir quem foi o
empresário que conseguiu levar o lateral-direito para o Chelsea...
Mas o pior de todos foi Roger Machado. Internamente e em
redes sociais eu até faço algumas críticas ao treinador gremista, mas aqui no
blog eu vinha aprofundando mais as questões de limitações do time e pegando
leve com o dono da casamata. Infelizmente, a paciência acabou. Mais uma vez as
trocas não foram criativas, não alteraram o panorama técnico e tático da
equipe, muito menos o panorama do jogo. Foram infinitos passes errados e
espaços generosos para os contra-ataques do Tricolor do Arruda, muito mal
aproveitados, aliás.
Até é elogiável a escolha pelo ótimo Guilherme Vieira, mas
era praticamente impossível ser pior que fora Pedro Rocha. A entrada de
Henrique Almeida é inexplicável. Quer dizer... Inexplicável é esse cara vestir
a camisa do Grêmio. Ao que parece, não foi bem o Internacional quem tomou um
“chapéu” nesse caso. No entanto, a pior de todas foi a entrada de Lincoln na
vaga de Douglas, para atuar na ponta-direita (?). Em resumo: desorganização
permanente e recorrente, sempre nos momentos em que o time mais precisa botar a
bola no chão e jogar.
Quando o time está ganhando jogos complicados, colocam-se
volantes para segurar o placar, ao invés de seguir com o mesmo padrão de jogo.
Quando o time precisa de um gol, atacantes são empilhados, perde-se o meio de
campo e a estrutura tática fica ainda mais vulnerável. Poucas foram as vezes
que o roteiro proposto por Roger Machado deu certo. Enfim, penso que o técnico
gremista precisa se reinventar, conhecer melhor as peças que tem, ou pelo menos
demonstrar que as conhece, e utilizá-las da forma mais correta possível.
A campanha do time ainda é muito boa, vide a proximidade
mantida para os líderes, mesmo com esse retrospecto recente de dois pontos
contra dois dos piores clubes do Brasileirão. Depois da vitória contra a Ponte
Preta, na rodada 6, falava que a equipe deveria manter uma regularidade,
sobretudo jogando na Arena, onde deveria ser proibido perder pontos para
equipes de tamanho inferior. O Grêmio conseguiu perder para o Vitória e empatar
com o Santa Cruz, e isso é inadmissível.
A ilusão que eu tinha no início da competição se dissipou.
Ainda que eu argumente favoravelmente ao time e suas possibilidades de sucesso
no Brasileirão, o faço de cabeça fria, analisando a estrutura atual do time e
dos adversários no campeonato. O Grêmio segue sendo candidato ao título brasileiro,
mas entendo os torcedores que deixaram de acreditar. A equipe gremista vai ter
que provar para seu povo que é possível seguir sonhando. E que a sequência que
está esperando o Grêmio não faça a torcida acordar de vez desse sonho.
Nem os gols de rebote e o bom humor nas redes sociais livraram Douglas das críticas após o jogo do último domingo (Foto: Reprodução)
No início da noite deste domingo, o Grêmio teve uma chance daquelas reluzentes para ficar na cola dos líderes de um dos Brasileirões mais equilibrados dos últimos tempos. O duelo foi contra o América-MG, lanterna convicto e absoluto do campeonato, que tinha (até então) média de meio ponto por jogo. Era a oportunidade do Tricolor mostrar sua cara e entrar de vez na disputa pelo título brasileiro.
Não dá para dizer que o Grêmio não mostrou sua cara. Aquele velho retrato dos últimos anos, de sempre amarelar na hora H e entregar para times pequenos, entrou em campo no Independência e tomou conta do time. Como eu disse em determinada rede social, “o Grêmio é isso aí mesmo”, nunca perde a chance de fazer um fiasco. Sim, empatar com o América-MG, mesmo na casa do adversário, seja qual for o cenário, é inadmissível.
Obviamente a torcida entrou em ebulição após o jogo, imbuída de um espírito fatalista totalmente contagiante - mais contagiante que a falta de vontade do time em Belo Horizonte. Não entro na onda dos que pensam que o Grêmio não pode ser campeão por ter tropeçado no último colocado. Foram dois pontos desperdiçados, mas os mesmos dois pontos caso o adversário fosse o Corinthians, o Flamengo, o Cruzeiro ou o Santa Cruz.
Vamos para o outro lado da moeda. Muitos dizem que, para ser campeão neste formato de pontos corridos, é necessário atropelar os pequenos e trocar pontos com os grandes. Concordo. Só que muitas vezes esquecemos que o Brasileirão é o campeonato com mais armadilhas dentre as “grandes ligas”. O pequeno pode surpreender o grande a qualquer momento, sem sobreavisos, não há uma lógica, até porque se tem uma coisa que o futebol não é, é uma ciência exata.
O Grêmio foi irritante, isso é consenso absoluto entre os gremistas. Foi um time indolente, autossuficiente, que pensou que poderia ganhar quando bem entendesse, como bem entendesse. No final das contas acabou muito mais próximo da derrota do que da vitória. O que deve ficar como aprendizado é que o Tricolor tem que encarar todos os jogos como se fossem finais, mostrando intensidade, gana, vontade de vencer. Se não ganhar, tudo bem, faz parte do jogo.
Não vejo os problemas de Belo Horizonte passando pelo técnico Roger Machado, ainda que eu siga sendo um crítico contundente do trabalho do ex-lateral multi-campeão. O time que entrou em campo foi praticamente o mesmo que dominou amplamente o São Paulo no domingo anterior, sem alterações estruturais ou algo que o valha. Ou seja, o que causou o desastroso empate foi uma questão puramente anímica, que vem do psicológico dos atletas.
Outra questão importante, que eu pontuei em alguns grupos logo após o jogo: o Grêmio carece de um planejamento de jogo, coisa que até meu time de futsal na adolescência tinha. O tal planejamento condizia em manejar as formas de jogo de acordo com o adversário, para que as qualidades do nosso time batessem com os defeitos do rival, mesmo que para isso fosse necessária uma mudança profunda na fotografia do time. Não digo que tivemos o maior sucesso do mundo, mas isso é importante para superar as próprias limitações.
Mais que superar, conhecer as limitações. Saber porque ganha e saber porque perde. Estudar, não apenas o adversário, mas estudar a si próprio. Fazer com que o espírito seja o mesmo, não importa o tipo de enfrentamento. Não é um software alemão que irá proporcionar isso à estrutura de futebol de um clube. Afinal, essa estrutura é composta por pessoas, passíveis de erros e capazes de aprender, ao contrário das máquinas e aplicativos.
Dito isto, concluo que o Grêmio pode sim ganhar o Brasileirão 2016. O time tem qualidade e uma estrutura tática que não deve nada a nenhum dos outros 19 oponentes no certame. Espero que todos os envolvidos tenham aprendido e incorporem o espírito vencedor necessário para qualquer conquista, seja no futebol, seja na vida. Já passou da hora de largar esse medo de ser feliz e enveredar rumo às vitórias e aos títulos.
Antes do Esquecimento
Foram conhecidos os confrontos das oitavas de final da Copa do Brasil. O Grêmio irá enfrentar o Atlético-PR, sendo o jogo de ida em Curitiba, e a volta na Arena. Os confrontos serão nos dias 24/08 e 21/09, e esse mês de intervalo será destinado aos jogos "quarta/domingo" pelo Brasileirão. Os outros gaúchos na competição, Internacional e Juventude, terão pela frente, respectivamente, Fortaleza e São Paulo.
Tévez foi apático e só pode lamentar a eliminação do seu Boca Juniors para o surpreendente Independiente del Valle (Foto: Marcos Brindicci / Reuters)
Da euforia à decepção. Uma promessa não cumprida. Um final desastroso, fiasquento. O final de temporada no futebol argentino tem a melancolia dos tangos mais tristes, com aquele quê de tragédia que só os porteños conseguem colocar em melodia e canção.
Nos últimos anos os torneios sul-americanos vinham apresentando para o grande público alguns clubes de menor expressão dentro do cenário nacional, em detrimento dos chamados “cinco grandes”, que andavam passando por maus bocados, inclusive visitando a indesejada Primera B Nacional, no caso de River Plate e Independiente. Tudo bem que o conceito de grandeza na Argentina não está ligado diretamente ao número de títulos conquistados, ou qualquer critério no âmbito esportivo, mas isso é outra história.
Para a Libertadores 2016, foram seis os representantes argentinos, sendo eles quatro dos cinco grandes, além do Huracán, considerado por muitos como um “sexto grande”. Aliás, fato que não era inédito, uma vez que na edição anterior da competição mais charmosa das Américas os representantes haviam sido os mesmos, à exceção do Estudiantes, que deu lugar ao Rosario Central este ano. A expectativa era que o futebol argentino alcançasse a 3ª final consecutiva e, consequentemente, conquistasse o 3º título seguido.
Os últimos campeões, San Lorenzo e River Plate, haviam passado por maus bocados, mas acabaram mirando y tocando La Copa em 2014 e 2015, respectivamente, quebrando uma hegemonia brasileira que já durava quatro anos. As coisas em 2016 começaram um tanto quanto nebulosas para os grandes, já que as atenções tinham que ser divididas entre Libertadores e Campeonato Argentino, que voltava a ser curto, com um regulamento esdrúxulo. E as coisas não estavam acontecendo como o esperado...
Em nenhum momento os participantes da Libertadores chegaram perto da vaga para a competição em 2017, à exceção do San Lorenzo, que se classificou, mesmo sendo trucidado pelo Lanús na final do campeonato. Um indício que as coisas não dariam muito certo, foi a série de empates nas rodadas de clásicos; apenas Rosario Central, em fevereiro, e o San Lorenzo, em abril, conseguiram vencer seus arquirrivais.
Na Libertadores, o Huracán já precisou superar dificuldades gigantescas, ainda na primeira fase, quando o ônibus que transportava o elenco na Venezuela, após a classificação heroica contra o Caracas, sofreu um acidente e por pouco não causou uma tragédia. A participação do Globo até que foi honrosa, eliminando Peñarol e Sporting Cristal, e complicando as coisas para o Atlético Nacional nas oitavas de final – o fortíssimo time colombiano havia sido adversário também na 2ª fase.
Esportivamente, o San Lorenzo sim foi uma tragédia. Não conseguiu vencer sequer um jogo em casa, e foi presa fácil jogando fora do Nuevo Gasómetro. Digamos que o time merecia melhor sorte, principalmente nos confrontos contra o Grêmio, mas foi grandiosamente prejudicado pelas ideias de jogo do seu então treinador, Pablo Guede, que preferia um estilo de jogo ultra-ofensivo, em detrimento de uma defesa mais sólida. No final das contas, acabou tendo que encerrar sua participação de forma melancólica, empatando com a Liga de Quito.
O Racing jamais chegou a empolgar, ou dar pinta real de que seria campeão. Passou com relativa tranquilidade pelo mexicano Puebla na 1ª fase, e por Bolívar e Deportivo Cali na fase de grupos, ficando atrás apenas do Boca Juniors. Contra o Atlético Mineiro, nas oitavas de final, La Academia chegou a estar se classificando, até os 25’ da etapa final, quando Pratto definiu o confronto no Independência. Com um time mais envelhecido e sem ideias de jogo muito claras por parte do técnico Facundo Sava, o Racing fez até mais do que poderia.
Quem decepcionou foi o Rosario Central. Tido por muitos como o time que jogava o melhor futebol na Argentina, não conseguiu se afirmar em nenhum momento. Fazendo uma rotação intensa no elenco, Eduardo Coudet parecia satisfeito apenas com a classificação, mesmo sendo visível o potencial que a equipe tinha. O melhor momento canalla na Libertadores foi nas oitavas de final, quando detonou o Grêmio, com duas grandes atuações. Nas quartas de final, o time não foi páreo para o Atlético Nacional, sendo eliminado com um gol no último lance da partida de volta, na Colômbia.
O Independiente... bom, o Independiente, de Avellaneda, foi o único grande ausente na Libertadores, mas teve outro Independiente que incomodou e muito na competição. Para a história, o Independiente del Valle é mais um estreante nas finais do torneio. Não apenas isso, os equatorianos eliminaram os gigantes River Plate e Boca Juniors, um verdadeiro Davi encarando de frente dois dos maiores Golias do futebol sul-americano.
O River Plate encarou problemas contra o São Paulo, mas, apesar da pontuação apertada na fase de grupos, nunca correu riscos reais de ser eliminado. Nas oitavas de final, o Millonario foi surpreendido pelo Independiente equatoriano, na altitude de Quito, e perdeu por 2 a 0. No jogo de volta, no Monumental de Núñez, o goleiro Azcona se consagrou, pegou quase tudo e os argentinos não conseguiram fazer mais que 1 a 0. Resultado e futebol insuficientes.
O time do Boca Juniors indiscutivelmente não era o melhor da gloriosa história do clube. Longe disso. Particularmente, fazia muito tempo que eu não via um time azul y oro tão fraco. Penso que este seja o time mais fraco dos últimos 20 anos. O time inicialmente treinado por Rodolfo Arruabarrena começou com dois empates, e o desempenho fraco, também no campeonato nacional, fez com que o presidente Daniel Angelici perdesse a paciência e demitisse El Vasco. A chegada de Guillermo Barros Schelotto fez o time encorpar e vencer os últimos três jogos, incluindo uma grande goleada sobre o Deportivo Cali, na Bombonera.
No final das contas, esses bons resultados eram enganosos, uma vez que a fragilidade dos adversários disfarçava as limitações dos xeneizes. Isso se viu contra o Cerro Porteño, nas oitavas de final, quando o Boca Juniors venceu as duas, mas sem um desempenho convincente. Na sequência, eliminar o fraco Nacional uruguaio foi uma dificuldade gigantesca. Depois do empate no Parque Central, por 1 a 1, uma vitória simples classificava os argentinos para as semifinais. Mas as coisas não foram tão simples assim...
Os uruguaios se impuseram e saíram na frente com um gol contra do capitão Daniel Díaz. O Boca empatou com Pavón, que tirou a camisa na comemoração do gol e foi expulso. O empate levava o resultado para os pênaltis, o que acabou acontecendo. Na decisão na marca dos 11 metros, brilhou a estrela do mundialista Orión, que defendeu três penalidades e garantiu a classificação xeneize.
Houve a parada para a Copa América Centenário, e algo estranho aconteceu. O time parou de jogar, devido ao final do campeonato nacional, e o ritmo de jogo se esvaiu.
Isso ficou perceptível no retorno, em julho, para o confronto contra o Independiente del Valle, nas semifinais da Copa. No jogo de ida, em Quito, faltaram pernas e fôlego para segurar os equatorianos, que conseguiram uma importante virada, após os argentinos saírem na frente, com o gol de Pablo Pérez. O domínio do Independiente também foi algo preocupante, pois a maior posse de bola foi dos donos da casa, além das melhores chances de gol.
Muito se falou antes do jogo de volta. A maioria do público imaginava que o Boca Juniors fosse se impor, fosse amassar o adversário, se aproveitando do peso de sua camisa e da tão falada mística da Bombonera. A festa foi a de sempre, mas a camisa ficou leve e a mística se esfacelou diante dos olhos de 50 mil pessoas. O garoto Pavón abriu o placar logo aos 3’, o time perdeu várias chances de gol, e permitiu o empate do time equatoriano. A volta do intervalo foi o início de um filme de terror. O Boca se atirou ao ataque, se expôs completamente aos contra-ataques adversários, e, coincidentemente aos 3’, o garoto Bryan Cabezas fez o gol da impensável virada. Dois minutos depois, Orión, heroi contra o Nacional, falhou miseravelmente e Angulo empurrou para o gol vazio.
A partir daí, a Bombonera, Schelotto e os jogadores ficaram aturdidos. Foi um impacto forte demais para que pudesse se ver uma reação racional de algum boquense no estádio. Inclusive Maradona abandonou seu camarote na tradicional cancha xeneize. Pavón ainda diminuiu no final do jogo, mas nem a derrota conseguiu ser evitada. Nem a derrota na final da Libertadores 2004, para o Once Caldas, da Colômbia, teve tanto ar de tragédia quanto essa eliminação.
O Boca Juniors eventualmente perde jogando em casa, até mesmo para adversários mais fracos em nível local. Mas jogos em grandes, decisivos, de Libertadores, principalmente, a Bombonera costumava intimidar, costumava latir, como dizem os argentinos. Só que no ano passado a torcida já havia feito a diferença negativamente, no confronto contra o River Plate, que provocou a exclusão do time da Libertadores. Desta vez, a pressão da torcida claramente se voltou contra o time, que se mostrou nervoso em muitos momentos da partida e fraquejou no momento mais importante da temporada.
A tragédia na Bombonera foi a cereja do bolo de um primeiro semestre para se esquecer dos grandes times argentinos, além da derrota da seleção na final da Copa América Centenário, aumentando ainda mais o jejum sem títulos da Albiceleste. Resta ver como o clube dos cinco grandes irá reagir na segunda parte de 2016, pois apenas o San Lorenzo está garantido na Libertadores 2017 (ao lado de Lanús, Estudiantes e Godoy Cruz), e a última vaga será destinada ao campeão da Copa Argentina, que será conhecido no final do ano. Serão longos meses no futebol argentino...
Comandados por Saviola, D'Alessandro e Romagnoli, os Pékerman Boys deram show no Mundial Sub-20 de 2001, em território argentino (Foto: AFP / Divulgação)
O futebol nos reserva alguns momentos que, uma vez presenciados, se tornam marcos na vida dos fãs do esporte. Ontem se completaram 15 anos que a Argentina conquistou o quarto dos seus seis títulos mundiais na categoria Sub-20, em competição disputada em território argentino, decidida no Dia da Independência do país. Eu já era um entusiasta do futebol dos nossos hermanos, depois de ver o grande Boca Juniors de Carlos Bianchi varrer a Argentina e a América entre 1998 e 2001, além da ótima seleção albiceleste, que só parou na poderosa Holanda na Copa do Mundo da França, também em 1998.
A Argentina vinha de dois títulos nas três edições anteriores do Mundial Sub-20, e a geração de 2001 definitivamente não era a mais promissora, já que os times de 1995 e 1997 contaram com nomes do calibre de Sorín, Riquelme, Aimar, Samuel e Cambiasso. De um modo geral, o trabalho de José Pékerman nas categorias de base argentinas era brilhante, tendo revelado grandes craques para o país, além de realizar grandes campanhas nas competições das chamadas juveniles. Este cartaz inclusive o alçou para o comando da seleção principal, para realizar o trabalho visando à Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, mas isso é outra história.
O contexto socioeconômico do país era caótico. A crise que já durava dois anos, caminhava para o seu patamar mais crítico, que acabaria eclodindo no final do ano, com as consequências do chamado corralito, instituído pelo então presidente Fernando de la Rúa. A indignação da população nas ruas, sobretudo a mais jovem, ganhava voz nos microfones, com o surgimento da cumbia villera, que se destinava a falar dos malogros de viver na Argentina naqueles tempos. No âmbito futebolístico, um dos melhores times do mundo era argentino, o Boca Juniors, que ganhara dois títulos consecutivos da Libertadores da América e um Mundial, em 2000, sobre o Real Madrid. Além disso, a seleção principal treinada por Marcelo Bielsa nadava de braçada nas Eliminatórias e encantava o mundo, ainda que sem grandes conquistas.
O Mundial ser sediado na Argentina talvez tenha sido um prêmio pelo retrospecto nas competições de base, e o fator local foi aproveitado como poucas vezes se viu em torneios envolvendo seleções. Mandando seus jogos no alçapão do Jose Amalfitani, cancha do Vélez Sarsfield, os argentinos foram literalmente perfeitos. Não só perfeitos, como avassaladores. Os números não mentem: sete vitórias em sete jogos, absurdos 27 gols marcados e apenas 4 sofridos. Artilheiro, craque da competição, prêmio Fair Play da FIFA... A Argentina simplesmente gabaritou a disputa.
Quase todos os titulares daquela equipe ganharam muitos títulos na carreira e defenderam grandes equipes em suas trajetórias. Talvez os únicos que não tenham ganhado notoriedade foram o lateral-esquerdo Julio Arca e o volante Nico Medina, curiosamente os únicos jogadores daquele plantel que já militavam no futebol europeu, ambos atuando no Sunderland, da Inglaterra. De resto, a escalação da final contra Gana fala por si só: Caballero; Burdisso, Colotto, Cetto e Arca; Ponzio e Nico Medina; Maxi Rodríguez, Romagnoli e D’Alessandro; Saviola. Sem contar nomes como Chori Domínguez, Coloccini e Germán Lux.
Naquele Mundial também surgiram nomes importantes do futebol internacional nos anos seguintes, como Kaká, Adriano Imperador, Cissé, Essien, Mexès, Van der Vaart, Donovan, Huntelaar, entre outros menos votados. Ou seja, a competição era acirrada, com Brasil e França, principalmente, contando com bons times, além da Holanda e dos africanos, sempre fortes na base.
A campanha argentina começou com uma tímida vitória por 2 a 0 sobre a Finlândia, quando nem a torcida estava no espírito da competição, o que se tornaria uma sinergia perfeita com o time nas fases seguintes. Na sequência, duas goleadas acachapantes sobre Egito e Jamaica, 7 a 1 e 5 a 1, respectivamente – só Saviola marcou cinco gols nesses jogos e encaminhou a artilharia da competição. Nas oitavas de final, dificuldades contra a surpreendente China, com direito a falha grotesca de Germán Lux e gol de Chori Domínguez a 10 minutos do final. Passado o sufoco, a adversária nas quartas de final seria a fortíssima seleção francesa.
Com muita festa da torcida nas tribunas do Fortín de Liniers, o show de Saviola começou cedo, com o atacante abrindo o placar aos 5 minutos. No entanto, depois de uma primeira parte de amplo domínio argentino, a França começou a gostar do jogo e apresentar sua força aérea, se aproveitando da fragilidade defensiva do time de Pékerman. O empate veio, ainda no primeiro tempo, aos 44 minutos, com Mexès, mas os franceses sequer tiveram tempo para comemorar – menos de dois minutos depois Saviola empatou, convertendo pênalti inexistente sofrido por ele próprio. No final do jogo, em contra-ataque que contou com assistência genial de D’Alessandro, el Conejo completou seu hat-trick e fechou o placar em 3 a 1.
O Paraguai apareceu no caminho argentino nas semifinais, e Saviola apareceu no caminho paraguaio. Dois gols do avante do River Plate abriram o caminho para mais uma goleada, completada por Romagnoli, D’Alessandro e pelo reserva Pollo Herrera. Domínio amplo na competição, goleada nas semifinais, e mesmo contra uma perigosa Gana, a Argentina tinha total favoritismo ao entrar em campo naquele 8 de julho de 2001. Mesmo sem contar com nomes importantes como Coloccini e Domínguez, nenhuma das mais de 30 mil pessoas imaginava sair derrotada do campo do Vélez naquela tarde ensolarada e fria de domingo.
O vídeo acima fala por si só. Uma festa absurda dos torcedores, pressão total do time albiceleste e mais uma vitória incontestável deram o tetracampeonato mundial na categoria Sub-20 para a Argentina. A brilhante geração de jogadores nascidos até 1981 se juntou ao timaço vindo dos campeões de 1995 e 1997, e formou a espinha dorsal do ótimo time comandado pelo próprio Pékerman, que fez boas campanhas entre 2003 e 2006, mesmo fazendo parte deste período insuportável sem títulos da seleção principal – mas que comandaram a Argentina na conquista do ouro olímpico, em 2004.
Apesar de terem carreiras sólidas, repletas de conquistas, os dois jogadores desta geração que mais admiro não chegaram a ser “World Class”. Claro que falo de Leandro Romagnoli e Andrés D’Alessandro. Os torcedores de San Lorenzo e do Internacional certamente serão gratos para sempre, por todos os serviços prestados por eles aos clubes, mas estes eram jogadores que eu imaginava liderando a seleção argentina em títulos de Copa América, de Copa do Mundo, e em grandes clubes do futebol europeu. Junto de Saviola, estes foram os expoentes técnicos desta equipe que me fez respeitar ainda mais a qualidade, raça e vontade de vencer dos argentinos. Estas três excelentes matérias, além das fichas da FIFA, tem conteúdo muito bom sobre a conquista da Argentina em 2001:
O Grêmio precisa realmente agradecer a Deus, a vitória sobre a Ponte Preta foi fruto de um verdadeiro milagre (Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA)
O primeiro título para esta crônica era "Ainda é cedo". Afinal, queria exaltar a vitória do Grêmio sobre a Ponte Preta nesta 6ª rodada do Brasileirão, mas sempre ressaltando o fato de que estamos no início do campeonato e de que a empolgação seria algo muito precipitado. Afinal, o Grêmio somou 13 pontos em 18 disputados, e divide a liderança com o Corinthians e o Internacional, mas está na linha de tiro da turma dos 12 e 10 pontos. Faltam 32 jogos, no entanto já vejo o Tricolor como um postulante ao título, pelo nível de seu jogo e pelas características do time, moldado a este modelo de competição, por pontos corridos.
Os comandados de Roger Machado parecem ter encontrado a tão almejada regularidade, mesmo que ainda estejamos nas rodadas iniciais desse longo Campeonato Brasileiro. A equipe tem uma proposta de jogo, e por mais que muitas vezes pareça indolente e irritante, é bem definida, que serve para jogar tanto dentro quanto fora de casa. Manutenção de posse de bola, velocidade de transição, compactação... Conceitos pregados aos sete ventos pelos estudiosos da atualidade e que encaixaram no perfil do atual grupo gremista, e acabaram dando liga a um time altamente competitivo para os padrões atuais do futebol brasileiro.
Em que pese toda essa introdução, o que importa é que alguns erros de 2015 parecem ter sido absorvidos e superados. Quer dizer... A dificuldade imensa em superar adversários postados defensivamente dentro da Arena segue a mesma. Contra Flamengo e Ponte Preta foram paridas duas bigornas incandescentes, sobretudo no jogo deste domingo, quando pouquíssimas coisas deram certo, mas o time foi premiado pela sorte, coisa que é determinante para times predestinados a grandes conquistas. Só que dessas bigornas vieram 6 pontos que serão fundamentais na sequência do certame, dentro daquela máxima de que "meio a zero é goleada".
A comparação com a temporada passada é inevitável. Sempre fui um defensor ferrenho de que o mando de campo deve ser sinônimo de 3 pontos. Nesse Brasileirão 2016, o Grêmio recebeu Flamengo, Coritiba e Ponte Preta, tem 100% de aproveitamento e não sofreu gols. O nível das atuações pode até ser discutível, como foi neste domingo, quando o time parou em frente ao ônibus campineiro e não conseguiu fazer nada, até o chutaço do contestado Luan, no último lance do jogo. Porém, em relação a resultados, não há do que reclamar, nem um pouco. A arrancada é a melhor do clube na história dos pontos corridos e o time beliscou a liderança na rodada 4, o que não acontecia desde 2008.
Nos últimos anos vinha se tornando uma constante a perda de pontos por atacado contra times de menor porte, jogando em Porto Alegre. Em 2015, o Grêmio fez 3 pontos na Arena recebendo Ponte Preta, Sport, Coritiba e Chapecoense. Enfrentando paranaenses e paulistas, já foram 6 pontos ganhos no atual campeonato. Um time campeão se faz atropelando os oponentes com menos tradição, e trocando pontos contra os seus iguais, coisa que os últimos campeões fizeram com excelência. Na próxima rodada, o Grêmio vai ao Rio de Janeiro enfrentar o Fluminense, em um jogo no qual os 3 pontos são importantes, mas não são uma obrigação, dentro do que acabei de mencionar. Vamos ver até onde vai a regularidade do Tricolor porto-alegrense.
Antes do Esquecimento
Estou queimando a língua com o Brasil de Pelotas na Série B. Com 6 jogos disputados, o Xavante tem 11 pontos disputados, dentro da zona de acesso, ainda que tenham sido 4 dessas partidas disputadas no Bento Freitas. De candidato ao rebaixamento, o Brasil começa a acumular uma gordura considerável para não sofrer da metade para o fim do campeonato. Pensar em classificação para a Série A parece um delírio, o qual fica reservado apenas para a fiel e fanática torcida do rubro-negro pelotense.
A Copa América Centenário começou neste final de semana, e já tivemos 5 jogos até aqui. Destaque para a vitória da Colômbia sobre os Estados Unidos na abertura da competição, por 2 a 0, e para o empate sem gols entre Brasil e Equador. Duelos entre Costa Rica e Paraguai, Haiti e Peru, e Jamaica e Venezuela não foram sequer dignos de nota. No momento da publicação deste texto, o Uruguai perde para o México, por 1 a 0, sem Suárez, se recuperando de lesão sofrida na final da Copa del Rey. A Argentina estreia nessa segunda (06), contra o Chile, no grande jogo da rodada inaugural.
Apontou e acertou: o Grêmio não ocupava o topo da tabela do Brasileirão desde outubro de 2008 (Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA)
Antes do início do Campeonato Brasileiro, nem o mais delirante dos torcedores da dupla Gre-Nal poderia imaginar que depois de quatro rodadas, os dois gigantes do futebol gaúcho estariam dividindo a liderança da competição. Os primeiros meses de 2016 foram pouco animadores, com um pouco inspirado Internacional conquistando o Gauchão, e o Grêmio decepcionando nas três competições que disputou. Eis que a arrancada do Brasileirão surpreende, com ambos os times mostrando grande solidez, se credenciando de cara ao título nacional que não fica na Província de São Pedro fazem longínquos 20 anos.
Depois da primeira rodada a sensação que ficou era de que teríamos mais um Brasileirão daqueles intermináveis, com a dupla lutando por posições intermediárias, para no final do campeonato se contentar com vagas para torneios continentais. Os empates sem gols contra Corinthians e Chapecoense foram difíceis de digerir, cada qual pelas suas circunstâncias. O Grêmio controlou o jogo na Arena Corinthians, perdeu boas chances de gol, mas mostrou muitos dos problemas que irritaram muito o torcedor nas eliminações na Libertadores e no Gauchão. Já o Inter, jogando em casa, consagrou o goleiro Danilo, da Chapecoense, e também não foi capaz de tirar o zero do placar, inclusive desperdiçando pênalti dos pés do zagueiro Paulão.
O Tricolor é o líder, com os mesmos 10 pontos colorados, mas com vantagem no saldo de gols. O time de Roger Machado não empolga como em 2015, ainda que dê mostras de estar se aproximando do seu melhor desempenho. A vitória categórica sobre os reservas do Atlético-MG pode até ter enganado muita gente, principalmente depois da vitória esquálida sobre o Flamengo na rodada 2. No entanto, é importante notar que o treinador gremista, ainda que tenha seus defeitos - e que não são poucos -, está reencontrando uma ideia de time que o tornou um dos técnicos mais badalados do país. O próximo passo é ter paciência com os talentosos jovens à disposição no elenco e torná-los protagonistas no time, deixando os criticados medalhões de lado - sobretudo Douglas e Marcelo Oliveira.
Talvez surpreenda ainda mais a boa largada do Inter, cujo futebol pouco vistoso dava esperanças igualmente proporcionais aos seus torcedores. É um time claramente moldado a se defender, jogando muitas vezes com três volantes, e que prima pela eficiência em todos os setores. O sistema defensivo, outrora uma dor de cabeça no Beira-Rio, aparentemente foi resolvido, com a ascensão de Artur e as ótimas fases de Paulão e Ernando. E os lampejos de talento individual, que era o que salvavam o time no ano passado, evoluíram para uma mecânica de jogo interessante do meio para a frente, contando com a qualidade e mobilidade do trio Eduardo Sasha, Andrigo e Vitinho. As vitórias maiúsculas contra São Paulo e Santos, ambos em território paulista, foram um belo cartão de visitas.
O Inter também aponta para o alto, mais um postulante ao título nacional (Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional)
O que fica é a expectativa de uma sequência de bons resultados que façam a dupla Gre-Nal brigar como protagonistas, como deveria ser em todos os anos. Não existe adversário fácil no Campeonato Brasileiro, tido por muitos como o mais difícil do mundo, mas 2016 também não é um ano que apresente um "bicho-papão". Os grandes paulistas estão em um período de instabilidade, sobretudo Corinthians e Palmeiras, os cariocas há tempos não assustam, e os mineiros parecem um pouco abaixo das ótimas campanhas feitas de 2012 para cá. Ou seja, mesmo longe de terem os melhores times das suas histórias, Grêmio e Inter mostram ter totais condições de sair da fila por títulos nacionais. Depende apenas deles fazer com que a ilusão do torcedor de um dos gigantes gaúchos se torne realidade e festa na Goethe no início de dezembro.
Antes do Esquecimento
Na tarde deste domingo foi disputada a grande final do Torneo de Transición argentino, entre San Lorenzo e Lanús, no Monumental de Núñez. Era esperada uma decisão altamente equilibrada, mas o time treinado por Pablo Guede voltou a fraquejar em uma decisão e foi massacrado pelo Granate. A vitória por 4 a 0 do Lanús ficou baratíssima, escancarando a falência do sistema de jogo do Ciclón. Apesar do vexame, o San Lorenzo estará na Libertadores 2017, junto do campeão Lanús, do Godoy Cruz e do Estudiantes.
O técnico Roger pecou pela covardia e voltou a tirar o torcedor gremista do sério (Foto: Wesley Santos / Agência PressDigital)
Dizem que "em tempos de guerra, qualquer buraco é trincheira". Depois de sequer chegar à final do Gauchão e de ser eliminado de forma categórica da Libertadores da América, o Grêmio tentou juntar os cacos para dar uma resposta convincente aos seus torcedores na estreia pelo Brasileirão. O Tricolor foi à Arena Corinthians para enfrentar o atual campeão, e voltou com um pontinho na mala, graças ao empate sem gols na capital paulista.
A direção já admitia antes do jogo que estava satisfeita em não perder. Objetivo cumprido? Em partes. Era de suma importância apresentar uma atitude diferente daquela mostrada contra o Rosario Central. Convenhamos que piorar era muito difícil, e contra um também abatido e pouco inspirado Corinthians, a missão ficou um pouco mais simples. O Grêmio dominou o jogo em sua totalidade, inclusive criando as melhores chances para tirar o zero do placar. Em condições normais, todos comemorariam o empate, mas ficou um gostinho de quero mais que incomoda.
Por que incomoda? Porque o time voltou a demonstrar a falta de ambição que irritou o torcedor na eliminação na Libertadores. O Grêmio de Roger Machado não precisa parir uma bigorna incandescente para vencer seus jogos e sabe disso. O problema é não tentar, é não buscar ir além de suas limitações, bastante evidentes, por sinal. O treinador gremista voltou a demonstrar que não tem criatividade alguma quando o jogo encrespa, ou quando precisa buscar o resultado. A troca de Bolaños por Edinho foi um crime lesa-pátria, um acinte à paciência do torcedor. Na prática, a medida trouxe o Corinthians ao campo do Grêmio, e os minutos finais só não foram de um terror ainda maior porque o Alvinegro paulistano está longe de seus melhores dias.
Não foi ruim para ser trágico ou intragável, também não foi bom o suficiente para estouro de foguetes. O Grêmio mostrou que tem potencial para fazer um campeonato digno, e que os desempenhos desastrosos nas decisões do primeiro semestre não são o teto do time, longe disso. Cabe à nova direção, encabeçada por Alberto Guerra, reforçar o time de verdade, e ao técnico Roger fazer uma forte autocrítica, para identificar seus erros, mas principalmente seus acertos, porque quem não sabe explicar os motivos de seu sucesso, também não saberá reconhecer seu fracasso.
Antes do Esquecimento
O Brasil de Pelotas estreou no último sábado na Série B, recebendo o Paraná Clube diante de um ótimo público em um Bento Freitas em obras. A vitória por 2 a 0, com doblete de Felipe Garcia, pode até empolgar o torcedor, mas o desempenho foi muito preocupante para quem vê de fora. Para manter a categoria, maior desafio do Xavante em 2016, o fator local será determinante, pois o time está claramente abaixo da necessidade que a competição impõe.
Dois degraus abaixo, o São José conheceu seus adversários na Série D nacional. O time da Zona Norte de Porto Alegre ficou no Grupo A14, ao lado de Villa Nova-MG, São Bento-SP e Portuguesa-RJ. A estreia será no dia 12 de junho, às 16h, contra o São Bento, em Sorocaba. O elenco que segue sendo comandado por China Balbino perdeu jogadores importantes, como Jô, Diego Torres, Rafinha e Wágner Fogolari, mas outros bons nomes chegaram, como o volante Reinaldo, ex-Lajeadense e de passagem pelo Palmeiras, o meia Alex Goiano, destaque do São Paulo de Rio Grande no Gauchão e o inoxidável atacante Rodrigo Gral, que dispensa apresentações.
Confrontos definidos. O bicho vai pegar ainda mais
na Libertadores 2016 (Foto: Divulgação / CONMEBOL)
Finalmente terminou a fase de grupos da Libertadores da
América 2016. Apesar da dramaticidade que foi uma constante na maioria dos
grupos, não tivemos tantas surpresas quanto nos anos anteriores. Agora começa
uma nova competição com os mata-matas, e o Vida Cancheira vem falar um pouco
sobre o que esperar desses confrontos que prometem movimentar o continente.
Dos brasileiros que começaram a competição, apenas o
Palmeiras ficou pelo caminho, em um grupo encardido, onde passaram Rosario
Central e Nacional. O São Paulo deu jeito na sua vida na reta final e conseguiu
se classificar no sufoco, enquanto Corinthians, Atlético-MG e Grêmio tiveram
relativa tranquilidade para seguir adiante.
As maiores surpresas, indiscutivelmente, foram as equipes
mexicanas, que dominaram seus grupos e mostraram muita força. As eliminações
precoces de Olimpia e Emelec no grupo 7, do Peñarol no grupo 4 e do Colo-Colo
no grupo 5 também chamaram a atenção, bem como as classificações de Deportivo
Táchira e Independiente del Valle.
Enfim, vamos ao que interessa. O emparelhamento da fase
final da corrida pela Copa mais charmosa das Américas está pronto, os jogos
estão marcados, então vamos aos confrontos.
ATLÉTICO NACIONAL/COL vs HURACÁN/ARG
Os verdolagas
tiveram a melhor campanha na fase de grupos, inclusive sem sofrer nenhum gol,
mas na hora das fases eliminatórias, isso quer dizer muito pouco. A
responsabilidade é toda dos colombianos, que enfrentarão o Huracán, pior 2º
colocado, no próprio grupo da equipe de Medellín. O Globo entra no confronto como franco-atirador, já tendo passado por
poucas e boas nessa Libertadores. A partir de agora, qualquer avanço tem gosto
de título para o time de Parque Patrícios. Qualquer coisa que não seja um
domínio colombiano será considerada uma enorme zebra.
ROSARIO CENTRAL/ARG vs GRÊMIO
Se as duas equipes pudessem escolher, nenhuma iria querer
enfrentar a outra. O Rosario Central é simplesmente a equipe que joga o melhor
futebol na Argentina atualmente, enquanto o Grêmio reagiu nas rodadas finais da
fase de grupos e tende a evoluir. Ambos os times contam com torcidas inflamadas
e tentarão fazer valer o fator local. Os argentinos carregam um leve
favoritismo, por estarem em melhor momento técnico, mas não se pode desprezar a
tradição e a força do Tricolor gaúcho na Libertadores. Se eu pudesse dar um
conselho, seria: não apostem seu dinheiro nesse duelo.
ATLÉTICO MINEIRO vs RACING/ARG
O duelo de dois dos times mais sofridos do continente. O
Atlético-MG descobriu recentemente o gostinho de ganhar a Libertadores, depois
de décadas sofrendo com as piadas do rival, enquanto o Racing está há quase 50
anos na seca, além de conviver com o (assim como o seu título, distante) hepta
do Independiente. São dois times vocacionados ao ataque, com torcidas
apaixonadas, e prometem entregar, assim como o outro duelo Brasil vs Argentina,
dois ótimos jogos de futebol, dentro e fora de campo. O momento dos brasileiros
é melhor, e a classificação deve ficar mesmo em Belo Horizonte.
TOLUCA/MÉX vs SÃO PAULO
O Toluca impressionou pela consistência na fase de grupos e
também pela força jogando como mandante, onde venceu seus três jogos, incluindo
viradas sobre LDU e San Lorenzo. Por sua
vez, o Tricolor paulista ainda sofre por ter um elenco que foge totalmente às
características preferenciais de seu treinador, Edgardo Bauza, notório
retranqueiro que tem em mãos um elenco com muito mais qualidade ofensiva do que
defensiva. O São Paulo tem o artilheiro da Libertadores, o argentino Calleri,
com 8 gols, mas que só deverá jogar a partida no México. Equilíbrio à parte,
minha aposta é no São Paulo para seguir adiante.
PUMAS/MÉX vs DEPORTIVO TÁCHIRA/VEN
Mais um replay da fase de grupos, Pumas e Deportivo Táchira
farão o confronto que talvez menos gente dê importância, mesmo que os mexicanos
tenham a 2ª melhor campanha na fase de grupos da Libertadores. Os Universitarios tem o melhor ataque da
competição, ao lado do River Plate, com 17 gols marcados, além de contar com um
elenco bastante experiente, repleto de estrangeiros. Os venezuelanos ganharam
todas em casa, perderam todas fora, mas deverão complicar as coisas no jogo de
ida, em San Cristóbal. Mesmo assim, deve dar Pumas, com sobras.
RIVER PLATE/ARG vs INDEPENDIENTE DEL VALLE/EQU
Dizer que o River Plate tirou a sorte grande é ser desonesto
com a história rica de surpresas que tem a Libertadores da América. No entanto,
é inegável que o jovem time do Independiente del Valle está bem abaixo do atual
campeão da América. Ainda que a equipe millonaria esteja longe de seu melhor
rendimento, foi o suficiente para superar a fase de grupos e também deve bastar
para seguir adiante, batendo os equatorianos. A curiosidade é para saber como
os argentinos irão se comportar na altitude de Quito, que talvez seja o maior adversário
do River Plate nas oitavas de final.
CORINTHIANS vs NACIONAL/URU
Em outros tempos, seria impensável um favoritismo absoluto
dos brasileiros diante do peso brutal que tem a camisa do Nacional. No entanto,
camisa deixou de ganhar jogo faz tempo e, mesmo passando em um grupo
complicadíssimo, os uruguaios não mostraram muitas credenciais de que podem
bater de frente com o Corinthians. O Timão aprendeu com os erros do ano
passado, quando subestimou o Guaraní paraguaio e caiu do cavalo. Mesmo com um
time bem inferior, manteve a mesma consistência e tem tudo para seguir adiante
na Libertadores, sem sustos.
BOCA JUNIORS/ARG vs CERRO PORTEÑO/PAR
Alguns tem esse confronto como um dos mais equilibrados
dessa fase, mas não se enganem: a tendência é de que os xeneizes não tenham nenhum trabalho contra o Cerro Porteño. O time
de Schelotto encorpou ao longo da fase de grupos, e se tem um time que entende
de mata-mata da Libertadores, este é o Boca Juniors. Os paraguaios acabaram de
mudar o comando técnico – chegou Gustavo Morinigo, vice-campeão da América com
o Nacional Querido, em 2014 – e ao que tudo indica não haverá tempo hábil para
os jogadores assimilarem a filosofia de jogo do novo DT.
Vocês estão mesmo dispostos a fazer história? (Foto: Divulgação /
Esporte Clube São José)
Esta semana não está sendo fácil. Tudo começou quando o
árbitro Roger Goulart decretou o final do jogo, quando já eram oito horas da
noite do último sábado no Passo d’Areia. A realidade de disputar uma semifinal
de Gauchão batia na porta e colocava o São José diante de um desafio dos mais
encardidos. As horas que antecederão a tarde desse sábado devem ser ainda
piores. Mais precisamente às 16h20 do dia 16 de abril de 2016, onze homens
pisarão no gramado do Gigante da Beira-Rio com a plena consciência de que podem
mudar suas histórias. De que podem mudar a história de um clube já centenário,
mas pouco acostumado às glórias, sempre um pequenino Davi à sombra de dois
Golias.
A responsabilidade está toda do outro lado. Nada do que
aconteça amanhã, ou no dia 23, irá diminuir o gigante que veste vermelho, mas a
obrigação de passar o carro e alcançar a 9ª final consecutiva no Estadual é toda
deles. Somos os franco-atiradores. O que vier é lucro. Já igualamos as
históricas campanhas de 1971, quando levamos a Copa Governador do Estado,
resultado da fusão com o Clube de Regatas Almirante Barroso, e do inesquecível
2010, ironicamente sob o comando do rival desta ocasião, Argel Fucks. Já temos
vaga garantida na Série D e a classificação para a Copa do Brasil 2017 é
praticamente uma realidade. Se perdermos, confirmaremos o inédito título de
Campeão do Interior.
Ou seja, a expectativa é imensa pela possibilidade de
transcender um obstáculo que até bem pouco tempo atrás parecia absurdo de
superar. Quem acompanha o clube de perto sabe muito bem disto. Nunca foi tão
palpável a chance de disputar uma decisão de Gauchão, que, para um clube como o
São José, realmente é uma Copa do Mundo. Chegar a esta final representa uma
quebra de paradigma que há muito tempo não se vê no futebol do Rio Grande do
Sul, quiçá do Brasil – ou ao menos em seus grandes polos. Não vou entrar nessa
onda de “anti-Gre-Nal”, “contra o futebol moderno” e afins, pois isso é
demagogia barata. Para crescer é necessário se adaptar ao ambiente, o que o
Zeca tem feito com muitos méritos.
Falando sobre questões objetivas e que me levam a crer que o
São José pode derrubar o Internacional: pelo Campeonato Gaúcho, o Alviazul não
perde para o adversário desse sábado desde 2012 – mas também não ganha, são 4
empates em 4 jogos; o espetacular 4 a 4 do ano passado, no Beira-Rio, ainda
está na retina dos torcedores de ambas as equipes, e foi uma prova real de que
o time da Zona Norte sabe enfrentar situações de adversidade; o time de China
Balbino nunca esteve tão consistente, sempre em evolução desde o título da Copa
Sul-Fronteira, conquistada justamente sobre o Colorado. Além disto, o time
parece mentalmente preparado para encarar qualquer adversário, e isso é o mais
importante.
O destino está nos pés do artilheiro Heliardo, do cerebral
Diego Torres, do endiabrado Jô, nas mãos salvadoras de Fábio, líder da melhor
defesa do Gauchão, nas estratégias do promissor China Balbino e sua comissão
técnica, e no pensamento positivo de toda a comunidade que está envolvida com o
São José. São dois jogos que podem provocar uma revolução, podem fazer com que
o clube mude de patamar, não para competir com Inter e Grêmio, mas para ter uma
autoestima que o permita sonhar com momentos de maior brilho. Uma autoestima
que faça o Esporte Clube São José ser visto como mais que apenas um clube
simpático da Zona Norte de Porto Alegre, e sim como um clube respeitável e
campeão.
Eis que voltamos aos trabalhos no Vida Cancheira, depois de uma interrupção de mais de um ano, em virtude de diversos compromissos que não permitiram aos redatores seguir contribuindo por aqui. Nada mais justo que retornar falando do que sempre nos moveu a expor nossas opiniões sobre aquilo que é, como diria o mestre Nelson Rodrigues, “a coisa mais importante dentre as menos importantes”.
Ao longo da nossa trajetória “metemos o nosso bedelho” em muita coisa, falando de futebol sob os mais diversos aspectos. No entanto, sem sombra de dúvida, a experiência mais gratificante foi poder abrir um espaço para falar sobre um clube que sempre teve a nossa simpatia e passou a ter a nossa torcida incondicional, o Esporte Clube São José, também conhecido como “o clube mais simpático do RS”.
Particularmente, sempre gostei do Zequinha, mas minhas relações com o clube da Zona Norte se estreitaram em 2007, quando Danrlei, um dos atletas mais vitoriosos da história do Grêmio, foi jogar por lá. Dali em diante passei a acompanhar os resultados do time mais de perto, até começar a frequentar o estádio, em 2010. Inclusive a minha primeira experiência no Passo d’Areia foi em um jogo pra lá de alternativo, entre São José e Cerro Porteño, do Paraguai.
A aproximação definitiva com o São José
Dois anos depois, aceitamos o desafio de cobrir os jogos do time no Gauchão 2012 aqui no blog, sobretudo o amigo Carlos Paiva, que inclusive chegou a viajar para Pelotas com a torcida do Zequinha. Seguimos indo aos jogos, e, no início de 2013, o clube encerrou um jejum de 32 anos sem títulos, ganhando a Copa Centenário, disputada no Passo d’Areia.
Nesse meio tempo, vimos o São José revelar alguns jogadores que tiveram passagens de destaque por polos importantes do futebol brasileiro e até do exterior. Ressalto aqui os casos de Walter, que atuou por Internacional e Porto-POR, e hoje defende o Atlético-PR, Victor Ferraz, lateral-esquerdo que hoje atua no Santos, Cassiano, ex-Internacional, que hoje está no Goiás, Tiago Volpi, atualmente goleiro do Querétaro-MÉX, e Pedro Carmona, de passagem pelo Palmeiras e destaque do Novorizontino. Isso sem falar em outros tantos atletas que estão em clubes menos importantes, mas que deram sua contribuição em seus momentos no Passo d’Areia.
Atualmente o clube vive um momento especial, de reconhecimento dentro e fora do Estado, pela campanha espetacular que vem fazendo no Gauchão 2016. Disto não vamos falar, pois a história é sabida por todos que acompanham o futebol gaúcho. O que poucos sabem é que, até cerca de 15 anos atrás, a realidade de bater de frente com a dupla Gre-Nal era bem diferente. O time vivia uma gangorra até 1999, quando voltou para ficar na elite do futebol gaúcho, contando com o aporte financeiro da Multisom, empresa do presidente da FGF, Francisco Noveletto Neto.
Algumas boas campanhas aconteceram nesse meio tempo, como nos Gauchões de 2001, quando o time alcançou o octogonal final (terminando na 5ª colocação), em 2006 e 2008, campeonatos nos quais o time foi bem na fase regular, mas sucumbiu nos mata-matas. No Gauchão 2010, aconteceu melhor campanha da história do clube até aqui, com o 4º lugar e resultados expressivos, como o 3 a 0 sobre o Inter, que seria campeão da América poucos meses depois. Já em 2011 e 2012, um duplo 6º lugar, foram as últimas campanhas relevantes do Zequinha.
O turning-point em uma história centenária
A consagração veio em 2015. Dois anos depois de desfeita a parceria com Noveletto, e contando com o empresário Milton Machado na presidência, o clube fez uma campanha totalmente irregular no Gauchão. Sob o comando de Gílson Maciel, o Cabeção, que até arrancou bem, sendo líder por duas rodadas, mas terminou na 11º colocação.
O segundo semestre reservava a disputa da Super Copa Gaúcha, composta dos chamados campeonatos regionais e da Copa FGF.
Na Copa Sul-Fronteira, o time foi competente para liderar a fase regular, treinado por Thiago Gomes, sortudo para eliminar o Lajeadense nas semi-finais e dominante ao vencer o Internacional, já tendo como comandante China Balbino. Já na Copinha, o time passou bem por União Frederiquense e Igrejinha, surpreendeu o Grêmio e só caiu no gol qualificado contra o Lajeadense. Com os resultados, o São José se habilitou a disputar a fase final da Super Copa Gaúcha.
Ali, o São José foi superior em todos os aspectos, detonando novamente o União Frederiquense, e tendo a maturidade e eficiência suficientes para ganhar o título no clássico contra o Cruzeiro, levantando o troféu no Passo d’Areia. Jô, Heliardo, Fábio e Rafinha foram os principais nomes do time na campanha que teve 24 jogos, com 13 vitórias, 9 empates e apenas 2 derrotas, também contando a participação na Copa FGF. Todos seguem se destacando neste histórico 2016.
Neste sábado (09), começa mais uma aventura do “mais simpático” nos mata-matas do Gauchão, recebendo o Novo Hamburgo no Passo d’Areia, às 18h30, querendo despachar a pecha de simpático e tornar-se de uma vez por todas temido e respeitado pelos rivais. Aconteça o que acontecer, a campanha já entra para a história do clube, e a disputa da Série D no segundo semestre vai ser apenas mais um desafio àquele que quer ser muito mais que apenas um clube de bairro.