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Henrique Almeida e Edílson observam Robinho comemorando, sem saber o que fazer. Àquela altura do campeonato, nada mais poderia ser feito... (Foto: Reprodução / Folhapress) |
Poucas situações na vida podem ser tão paradoxais quanto a
saída de um estádio de futebol. É um momento de absoluta comunhão de
expectativas frustradas ou de júbilo embriagante que pode influenciar nas
próximas horas, semanas ou vidas, dependendo do peso da entrega no placar
final. Poucas coisas no futebol são piores que sofrer um gol nos minutos
finais. Aí não importa o contexto, o desgraçamento mental e a sensação de que aquilo
era uma coisa totalmente evitável tomam conta dos nossos corações e nos fazem
ter uma ressaca moral aparentemente incurável.
Este poético e rebuscado prólogo só serve para expressar o
quanto está sendo difícil de lidar com o empate que o Grêmio sofreu ontem para
o Atlético-MG, na Arena. O Tricolor foi amplamente superior, não correu nenhum
risco durante o jogo e mesmo assim não saiu com a vitória, prova cabal que a
justiça acontece apenas nos tribunais, e olhe lá. O 1 a 1 mantém o time
gremista na 6ª colocação no Brasileirão, com 36 pontos, 7 a menos que o líder
Palmeiras, ainda que tenha um jogo a menos em relação aos demais times da parte
de cima da tabela. Este jogo a menos, contra o Botafogo, será o próximo
compromisso do Grêmio, no próximo domingo, às 16h.
Quando a formação inicial do Grêmio foi anunciada, não vi
com bons olhos a opção pelos três volantes, mesmo que nenhum deles seja
propriamente um quebrador de bola, muito pelo contrário. Fiquei apreensivo,
pois jogando contra um adversário que claramente iria jogar mais postado, o
time poderia perder poder de fogo. No entanto, desde o primeiro minuto o Grêmio
amassou, indo para cima do Atlético-MG e povoando o campo adversário, como o
caráter decisivo do jogo exigia. Ainda assim, mesmo jogando inteiro no
território rival, o time gremista tinha pouquíssima profundidade, com Luan e
Bolaños jogando abertos e sem chegar perto da área defendida pelo campeão
olímpico Uílson.
A volta do intervalo foi de manutenção do estilo, e deu
certo. Logo no início do 2º tempo Luan contou com a sorte, e viu um chute
despretensioso da entrada da área explodir em Ronaldo e encobrir Uílson. O
Grêmio continuou dominando o jogo, tecnica e territorialmente, mas sem criar
mais chances claras de gol. Aqui cabe um parêntese: em que pese ter marcado o
gol da vitória contra o Atlético-PR na última quarta-feira, pela Copa do
Brasil, ontem foi mais uma jornada infeliz do equatoriano Miller Bolaños. O
camisa 23 gremista insiste em não justificar o enorme investimento feito em seu
futebol, seja pelas decisões erradas ou posicionamento equivocado dentro de
campo, seja pela infinidade de gols perdidos. Haja arroz para pagar esse
prejuízo.
O técnico Roger Machado também parece ter perdido a
paciência com o outrora “Killer” e voltou a apostar no fraco Henrique Almeida, após
uma sequência de jogadas malfadadas do ex-astro do Emelec. E após uma troca
ainda mais malfeita do treinador gremista, eu perdi a paciência com ele. A
entrada de Ramiro na vaga de Douglas, deixando o time com inacreditáveis 4
volantes em campo, era o prelúdio de uma tragédia que não tardou a acontecer.
Mais precisamente 5 minutos após a mudança, aos 41’ do 2º tempo, Robinho, que
sempre gostou de marcar contra o Grêmio, aproveitou uma paciente troca de
passes do Galo e acabou com a festa gremista. Aí é o momento em que eu deixo de
saber o que pensar e só sei o que sentir – e como xingar.
Em primeiro lugar, como é que ninguém tem a capacidade de
matar a troca de passes de um adversário que está em busca do resultado? Como é
que um time com 4 volantes fica apenas observando o toque de bola rival, com
jogadores trotando no campo defensivo? Por que o treinador não estava à beira
do gramado esbravejando para não deixarem o adversário jogar? Por que essa
insistência em um futebol bonito que não permite jogar sujo para garantir um
resultado? A vitória era vital na luta pelo título brasileiro e foi jogada no
lixo, sem remorso algum e com a complacência de parte da torcida que aplaudiu o
time ao final do jogo. Honestamente, prefiro um time que jogue mal, passe
aperto o tempo todo, mas que obtenha os resultados. Nessa altura do campeonato,
o mais importante são os 3 pontos, podendo ser desprezado o aspecto
qualitativo, sem dor alguma na consciência.
Se eu pudesse indicar uma leitura para Roger Machado,
certamente seria “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel. Talvez ele aprenda um pouco sobre ambição e
sobre as coisas a serem feitas para alcançar determinado objetivo. Vejo um
perfil conformista no comandante gremista e os jogadores absorvem essas
pequenas coisas para seus subconscientes, o que impede um centromédio de enfiar
a pata no seu adversário para minimizar qualquer chance de sofrer um gol. O que
quero dizer é que, para vencer, às vezes é necessário transgredir e ignorar as
regras, mesmo que isso seja antiético, imoral, chame como quiser. No aspecto
técnico Roger é excelente, encontrou uma maneira de jogar que se adéqua ao
elenco à disposição, mas que não tem aquele algo a mais que caracteriza um
time vencedor.